Inês Online

Blogue com trabalhos desenvolvidos nas aulas de Online.

Sunday, October 29, 2006

Jornalismo vs. Jornalismo do Cidadão

Jornalismo do Cidadão

Não é novidade nenhuma que o aparecimento da Internet trouxe novos desafios à comunicação. Este novo “mass media” veio revolucionar as concepções de tempo e espaço da publicação e transmissão de notícias de uma forma alucinante.

É neste contexto que surge o conceito de “jornalista cidadão”. Designado como um participante activo da prática jornalística, o jornalista cidadão produz conteúdo divulgado sobretudo através de novas tecnologias (não só através da Internet, mas também de telemóveis, PDA’s, entre outros). Com o jornalismo do cidadão (também designado por “citizen journalism”, “grassroots journalism”, jornalismo participativo, jornalismo colaborativo ou jornalismo “open source”) qualquer pessoa pode recolher, analisar e publicar informação, à semelhança do trabalho desenvolvido pelos jornalistas profissionais. Isto só é possível devido às ferramentas da tecnologia moderna de que hoje dispomos.


Problemática

O ponto de partida para esta breve análise tem origem na crescente “especialização” dos jornalistas cidadãos, que assumem, cada vez mais, um papel importante na recolha e divulgação de informação. Será que o jornalismo do cidadão se está a tornar numa ameaça para o jornalismo profissional? Ou será que a coexistência é pacífica e favorável para ambos? Numa recolha de opiniões relativamente abrangente, tento chegar a algumas conclusões sobre o impacto do jornalismo do cidadão.


Opiniões

-> A crescente importância do leitor no processo de produção e circulação de notícias é vista por Carlos Castilho como “o fenómeno com maior potencial transformador nas relações entre o jornalista e seu público”. Carlos Castilho considera que a incorporação do público na produção de notícias ainda não pode ser considerada definitiva, mas tudo indica que o jornalismo do cidadão está a originar uma “revisão profunda nos paradigmas editoriais contemporâneos e no papel desempenhado pelos jornalistas na produção noticiosa”.

No “Observatório de Imprensa”, o jornalista diz que esta é uma área pouco estudada pelos "profissionais da notícia". No entanto, adianta que alguns pesquisadores norte-americanos e europeus (não especificados) defendem que a diferença entre jornalistas profissionais e weblogs de informação, feitos por amadores, tende a resumir-se ao estudo e conhecimento do público a que se dirigem.

-> Rusty Foster defende a ideia de que nem todos os weblogs são noticiosos. Alguns tentam, mas poucos conseguem atingir um nível de noticiabilidade que nos permita falar de jornalismo. Os weblogs tendem a funcionar como circuitos de transmissão de boatos.

Mas não é por isso que Rusty Foster deixa de pensar que os weblogs são úteis. Como não há a obrigação de seguir determinadas regras noticiosas, os weblogs permitem-nos ter acesso a pontos de vista alternativos, o que Rusty Foster considera positivo: “I think that, in their proper role as opinion-markers, weblogs are one of the best things to happen to the media, if not particularly 'news' journalism”.

-> José Luis Orihuela traça um cenário pouco colorido quanto ao futuro do jornalismo. O professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra, em Espanha, pensa que os blogues vão continuar a existir e, mais que isso, prevê mesmo que alguns poderão se tornar mais populares do que os meios de comunicação online. No entanto, aponta a prática comum de comprar determinadas opiniões ou ligações como uma ameaça à sobrevivência dos blogues.

Para José Luis Orihuela, “pode-se escrever um blogue sobre tudo o que nos apaixone”, como referiu no 3º Encontro Nacional e 1º Encontro Luso-Galaico sobre Weblogs. Mas o professor não concorda com a expressão “jornalista cidadão”: “los blogs no son periodismo, ni nuevo ni viejo; no hay, en la inmensa mayoría de los blogs, la más mínima intención por hacer periodismo ni los bloggers son considerados como periodistas. Orihuela considera que os blogues son un medio de comunicación personal que tiene un impacto relativo sobre el ecosistema mediático en la medida en que constituye un nuevo cauce de comunicación pública.

-> Sergio Denicoli dos Santos fala em “cidadão-repórter”. No seu trabalho “O novo media na imprensa: as notícias sobre a Internet no jornal Público, questiona a credibilidade da informação retirada da Internet: “Será esse o futuro do jornalismo? Um emaranhado de informações disponibilizado em rede, feito com base em fontes diversas, credíveis ou não, ao sabor das convenções próprias de cada usuário? Uma fonte construída em torno de inúmeros computadores que serve como referência até mesmo para outros media?”.

Sergio Denicoli atenta para o facto de que a Internet conseguiu, em poucos anos, abalar conceitos estabelecidos há décadas e adverte para as mudanças que se avizinham no mundo do jornalismo. Uma dessas transformações é o desaparecimento do antigo conceito de jornalista-fonte, em favor do jornalismo produzido por cidadãos. Sergio Denicoli afirma que “cabe às empresas e aos profissionais focados na ética e na boa prática do jornalismo encontrarem um espaço distinto que permita garantir a credibilidade necessária para a boa divulgação e análise dos acontecimentos.”

-> Dan Gillmor, em “We The Media” (livro disponível online), fala-nos do mundo dos blogues na primeira pessoa. Conta que foi um dos primeiros jornalistas com carteira profissional a publicar um blogue e que, a certa altura, se apercebeu de que os seus leitores passaram a ser seus colaboradores (“My readers, I realized, had become my collaborators.”).

O autor acredita que, cada vez mais, o público vai-se tornar parte integrante do processo de construção das notícias, mas não considera isso uma ameaça. Para Gillmor, o jornalismo cidadão não vai substituir o lugar dos jornalistas profissionais, que terão sempre de existir para recolherem factos, para fazerem perguntas com uma certa disciplina e para se dirigirem a um público mais vasto. Dan Gillmor diz que o que tem vindo a aprender é que o público, se tiver oportunidade, tem muito para dizer. A Internet é o primeiro meio de informação de que o público é propritário, o primeiro meio que lhe deu voz (“That doesn’t mean there isn’t a place for pro-journalists, who will always be there— who need to be there—to gather the facts, ask questions with some measure of discipline and pull together a larger audience. What I’ve learned is that the audience, given half a chance, has a lot to say. The Internet is the first medium owned by the audience, the first medium to give the audience a voice.”). O autor afirma mesmo que os seus leitores fazem dele um melhor profissional (“the major value has been in the way my readers have made me better at my job.”).

Mas Dan Gillmor não esconde o receio de que o jornalismo de investigação, por questões económicas, venha a diminuir, ou mesmo desaparecer. Pois não é possível desenvolver este tipo de jornalismo através da Internet: “What blogger will take on the next Watergate scandal the way The Washington Post did?”.

Por um lado, o autor de “We The Media” acredita que os jornalistas podem aumentar a sua credibilidade se ouvirem os seus críticos online. Por outro lado, reconhece que as notícias publicadas pelos jornalistas profissionais têm muitas vezes origem nas informações concedidas pelos cidadãos. Dan Gillmor relembra-nos que algumas das mais importantes fotografias e vídeos da história recente da informação foram criados por amadores. Mas recorda que a participação do público na construção noticiosa não é de agora. Por exemplo, há muito tempo que os leitores escrevem cartas ao director de um jornal ou os jornalistas atendem telefonemas de elementos do público que fornecem dicas ou apresentam reclamações. A diferença reside na quantidade e velocidade de transmissão de informação / de interacção entre jornalistas e cidadãos. Dan Gillmor fala em “interactive Journalism” e “open source journalism”.

O autor sugere a publicação periódica das melhores fotografias de cidadãos comuns, por parte dos órgãos de comunicação social: “The newspaper (or broadcast outlet or whatever kind of news service) should periodically post the best pictures online and in the regular news product. In this way, they can get the public accustomed to using the medium in this manner. Then, when some big event occurs, the organization will have trained at least some people to use the posting service almost by reflex.” Para Gillmor, o futuro do jornalismo passa pela coexistência pacífica entre amadores e profissionais. As publicações do género do "OhmyNews" (jornal coreano online em que as notícias são escritas por cidadãos comuns) vão surgir por toda a parte.

-> O livro “JORNALISMO CIDADÃO – Você faz a notícia” (disponível online) é um autêntico manual de aprendizagem para todos aqueles que se queiram tornar jornalistas cidadãos (e não só). Logo no início da introdução, lê-se: “Conquiste a Rede é um convite para participar do processo de criação coletiva na internet. Com um pouco de conhecimento, cada um de nós pode tornar-se dono de um veículo de comunicação. Convidamos você a ocupar seu espaço nessa plataforma onde vozes de todo o mundo interagem.” Na perspectiva de que “todo o cidadão é um repórter”, Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei explicam, de forma simples e prática, o essencial sobre a prática jornalística.

Estes autores consideram que o jornalismo do cidadão é um dos fenómenos mais interessantes e importantes da Internet: “Ocupar seu espaço na web significa também transformar o jornalismo em uma conversa de um para um, um para muitos e de muitos para muitos.”

Ana Foschini e Roberto Taddei atentam para o facto de que, hoje em dia, através da Internet, qualquer pessoa pode facilmente seleccionar a informação que lhe interessa. Para estes jornalistas, a nova realidade não exclui a produção dos jornalistas profissionais, mas “acrescenta a ela a contribuição de cidadãos jornalistas, leigos que são testemunhas de fatos importantes, gente que está no lugar certo e na hora certa para cobrir um evento, especialistas que podem falar melhor sobre determinado assunto e ainda todas as vozes que simplesmente desejam se manifestar.” E essa divulgação de informação, nos nossos dias, é simples e económica. Porque não participar?

Apesar de revelarem as ferramentas básicas para a construção de notícias, Ana Foschini e Roberto Taddei não deixam de ter algumas precauções. Explicam claramente o universo complicado do jornalismo cidadão, fruto de muitas discussões, e apelam à reflexão. São levantadas questões sobre a ética do que é produzido sem regras e técnicas jornalísticas, as garantias da veracidade da notícia, os cuidados que um autor não profissional deve ter, a importância de fazer um curso superior na área do jornalismo, os limites da privacidade: “Se você quiser participar dessa transformação na forma de produzir e divulgar notícias, precisa pensar sobre algumas coisas antes de mostrar como é o mundo a partir do seu ângulo de visão.”

Estes dois jornalistas consideram que qualquer pessoa se transforma num cidadão jornalista “quando toma a iniciativa de divulgar uma informação.” Acreditam que qualquer publicação terá uma audiência interessada, mesmo que muito reduzida. Para eles, o jornalismo do cidadão é a única forma de divulgar conteúdos que interessem a públicos específicos, o que tem grande relevância se tivermos em conta que a procura de informação é cada vez mais individualizada e direccionada.

Ana Foschini e Roberto Taddei falam ainda nos benefícios da interacção entre jornalistas e jornalistas cidadãos. Estes últimos podem contribuir para o sucesso das notícias publicadas pelos primeiros, de diferentes formas. Criticar, elogiar, apontar erros, mostrar outras versões dos factos e acrescentar dados pode ser extremamente útil para ambos. Um jornalista cidadão deve ser, acima de tudo, participativo, colaborador e respeitador das opiniões alheias.

Estes jornalistas deixam clara a sua posição em relação às controvérsias existentes em volta do tema “Jornalismo vs. Jornalismo do Cidadão”. Para Ana Foschini e Roberto Taddei, o jornalismo cidadão não é um concorrente do jornalismo tradicional: “Eles podem ser aliados em alguns pontos e podem estar em campos opostos em determinados temas e debates.”

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Curiosamente, tendo feito uma pesquisa exaustiva sobre o assunto, não encontrei nenhum autor em específico que se declarasse veemente contra o jornalismo do cidadão. Penso que isso terá acontecido por um motivo muito simples: quem não concorda minimamente com o trabalho desenvolvido pelos jornalistas cidadãos, com certeza que não vai publicar as suas ideias na Internet, pois considera isso jornalismo do cidadão. Uma vez que a minha pesquisa se restringiu a este meio, é essa a única resposta plausível que encontro.


Conclusões: A Minha Opinião

Ao efectuar a minha pesquisa, descobri que ronda alguma controvérsia em torno da própria definição de jornalismo, muitas vezes confundido com jornalismo cívico. Também verifiquei que, por um lado, há autores que acreditam apenas no jornalismo enquanto prática profissional. Para muitos, somente os jornalistas profissionais são capazes de seguir os rigores e éticas envolvidas no processo de relatar notícias. Por outro lado, há muitos jornalistas profissionais que apoiam o jornalismo do cidadão, considerando-o indispensável para um desenvolvimento mais positivo do seu trabalho. Muitas vezes os próprios jornalistas aderem ao jornalismo cidadão, escrevendo em blogues pessoais, de forma livre, sem seguir obrigatoriamente uma hierarquia tradicional do jornalismo.

Eu não concordo com a ideia de Dan Gillmor, quando se refere à publicação periódica de conteúdos produzidos por jornalistas cidadãos. Considero esta sugestão pouco viável, mesmo que haja uma identificação correcta do autor das matérias publicadas, pois a “mistura” de jornalismo do cidadão com jornalismo de referência é um risco para a credibilidade dos jornalistas e dos órgãos de comunicação social. Não sei até que ponto o público está preparado para distinguir o que é trabalho jornalístico e o que é amadorismo.

Desta forma, não estou de acordo, tal como José Luis Orihuela, com a expressão “jornalista cidadão”. Do meu ponto de vista, a cobertura de eventos locais, se não tiver interesse para um público significativo, não é jornalismo. Da forma como Dan Gillmor expõe as suas ideias em “We The Media”, dá a entender que, por assim dizer, até a cobertura da festa de aniversário da vizinha do lado é notícia. Eu considero que isso, salvo raras excepções, nunca é notícia. Por isso, pode ser trabalhado por amadores, mas nunca será jornalismo.

Eu penso que se está a valorizar uma fonte (porque os jornalistas cidadãos não são mais do que fontes). A única diferença é que podem ser eles próprios a publicar as suas informações, como bem entenderem. Mas também eles (e só eles) devem responder por aquilo que publicam. Penso que falar em jornalismo do cidadão é misturar as coisas.

Por exemplo, uma pessoa que estudou até ao 12º ano pode dar explicações de Matemática. E até pode conseguir fazer um bom trabalho, mas isso não faz dela uma professora. Da mesma forma, um cidadão sem formação específica pode publicar as suas próprias notícias, mas isso não o transforma num jornalista.

Um jornalista cidadão não é imparcial. Conta a sua versão dos factos, sem fazer um distanciamento indispensável ao jornalismo por excelência. Assim, penso que o jornalismo do cidadão pode ser utilizado como fonte de informação por parte do jornalista, mas com muito cuidado. Reconheço a importância de algumas informações, sem as quais seria impossível construir um sem-número de notícias. No entanto, este método de “recolha de informação” será sempre benéfico? A resposta é negativa.

A informação de fontes institucionais é, em princípio, mais fiável do que aquela que é publicada em blogues. No caso do jornalismo cidadão, em que cada um produz, por assim dizer, os conteúdos que quiser, até que ponto podemos considerar de confiança as notícias publicadas por indivíduos comuns? Como podemos saber que aquelas fotografias não são uma montagem? Como podemos saber que aquele relato é verídico? Claro que, num jornal feito por jornalistas profissionais, nunca há certezas absolutas (basta recordar, por exemplo, o caso verídico retratado no filme “Shattered Glass”), mas pelo menos há um código de ética e deontologia a seguir, a preservar.

O jornalista tem que responder perante os conteúdos que publica. E um jornalista cidadão? Que riscos corre e o que tem a pagar? Um jornalista profissional põe a sua carreira em perigo. Mas um jornalista cidadão apenas se arrisca a responder perante a justiça. Não vai ser “apontado” pela sociedade, pois esta não lhe atribuiu o dever de informar.

Um jornalista, em qualquer situação, tem a obrigação de seleccionar a informação. Por isso, penso que é lógico que também deve aplicar esse critério à informação proveniente do cidadão comum. Um jornalista cidadão, do meu ponto de vista, nunca irá conseguir atingir a qualidade de trabalho de um jornalista profissional, pois não tem bases de suporte. Afinal, para que servem os cursos universitários? É verdade que até há bem pouco tempo não era obrigatório uma pessoa licenciar-se em Comunicação para obter a carteira de jornalista. Mas também é verdade que o jornalismo nunca esteve tão próximo da “rectidão” como hoje está. Há que aprender com os melhores para saber fazer as coisas. E um jornalista cidadão, em princípio, nunca teve contacto com jornalistas experientes ou com uma formação específica. Por isso congratulo a iniciativa de Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei, ao publicarem um livro com a explicação detalhada dos princípios básicos do jornalismo do cidadão.

Apesar de todos os pontos negativos que enunciei, concordo com a participação controlada dos jornalistas cidadãos na criação de notícias de jornalistas profissionais. Contudo, eu aplicaria o nome de “cidadão interveniente” em vez de “jornalista cidadão”, tal como a um cidadão que intervém na comunidade onde reside e expressa as suas opiniões, tal como a um cidadão que escreve uma carta de leitor para um jornal.

Na minha opinião, a Internet apenas facilita a interacção entre os jornalistas e a sua audiência. Quanto ao resto (a publicação de notícias por parte dos cidadãos), trata-se de amadorismo, tal e qual o que se observa noutras profissões, como nos fotógrafos, por exemplo.

Para terminar, numa análise geral, concluo que a questão do jornalismo do cidadão é muito complexa e nós, portugueses, ainda não estamos preparados para dar uma resposta concreta. A realidade do jornalismo do cidadão ainda nos é um pouco distante. No entanto, mesmo tendo em conta um plano global do jornalismo do cidadão, chego à conclusão de que é necessária a realização de análises exaustivas por parte de jornalistas experientes, que conheçam muito bem a Internet como meio de comunicação, uma vez que este é o meio por excelência utilizado pelos jornalistas cidadãos. É também necessária a realização de muitos debates. Mas penso que as primeiras respostas mais coerentes, resultantes de uma análise mais profunda e num contexto global, só poderão aparecer dentro de alguns anos. Este universo ainda é, na minha opinião, muito recente.

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1 Comments:

At 1:03 PM, Anonymous Anonymous said...

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